IAPSP debate ‘Sobrevivência e Recuperação’, de Ornstein
- abeppsorgbr
- 13 de abr.
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Anna Ornstein, uma das vozes mais importantes da psicologia do self, foi tema de debate neste domingo (12/4/2026), em videoconferência promovida pela Associação Internacional para a Psicologia Psicanalítica do Self (IAPSP), por meio de seu Comitê de Educação Online.
Eles debateram o artigo "Sobrevivência e Recuperação", de Ornstein, que trata da recuperação de vítimas do Holocausto, questiona a redução dessas experiências à psicopatologia, mostra que não existe um perfil único de sobrevivente e destaca o papel da resiliência, da história individual e dos valores na reconstrução da vida após o trauma.
Como parte do conjunto de instituições que estudam e difundem a psicologia do self, nós da ABEPPS acompanhamos e valorizamos esse debate, que amplia o campo clínico e a compreensão da experiência humana em sua complexidade. Ao fim deste texto, você terá acesso a transcrição do enconrto (inglês e português), o artigo debatido e outros materiais.

Para além da patologização do trauma
A atividade reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes para refletir sobre um tema que permanece profundamente atual: como o ser humano enfrenta, atravessa e elabora experiências traumáticas extremas.
Um dos pontos centrais discutidos no encontro foi a crítica de Anna Ornstein à tendência, presente em parte da literatura e da prática clínica, de reduzir sobreviventes de traumas extremos — como o Holocausto e outros genocídios — a quadros psicopatológicos.
Ao contrário dessa perspectiva, Ornstein propõe uma abordagem mais ampla e sensível, que reconhece que não existe um único modo de sobreviver ao trauma. Cada trajetória é marcada por recursos internos próprios, e generalizações podem apagar a experiência subjetiva.
A importância da história anterior ao trauma
Outro aspecto fundamental destacado na discussão foi a relevância daquilo que antecede o trauma. A obra de Ornstein evidencia que a capacidade de enfrentar situações extremas está profundamente ligada a elementos já presentes na constituição psíquica do indivíduo, como:
vínculos afetivos precoces
valores e ideais internalizados
experiências de cuidado e reconhecimento
Esses elementos funcionam como base de sustentação do self, permitindo que, mesmo em condições adversas, algo da identidade e da vitalidade psíquica seja preservado.

Vínculo, cuidado e sobrevivência
Relatos discutidos no encontro reforçam um ponto essencial: ninguém sobrevive sozinho. Em contextos extremos, como os campos de concentração, pequenos gestos de cuidado, relações de apoio e laços afetivos desempenham papel decisivo. A cooperação, o compartilhamento e a presença do outro tornam-se condições fundamentais para a manutenção da humanidade. Esses vínculos não apenas sustentam a sobrevivência física, mas também preservam a coesão psíquica.
Resiliência e continuidade do self
A perspectiva da psicologia do self, como apresentada por Ornstein, desloca o foco exclusivo do trauma para incluir também a capacidade de reconstrução. Mesmo diante de experiências devastadoras, os indivíduos podem manter:
um sentido de continuidade interna
valores fundamentais
formas de esperança e projeto de futuro
A recuperação, nesse sentido, não implica apagar o trauma, mas integrá-lo à história pessoal, preservando a identidade.
Escuta clínica: entre teoria e singularidade
A discussão também trouxe implicações importantes para a prática clínica.
Ornstein nos lembra que o analista deve estar atento ao risco de interpretar a experiência do paciente a partir de modelos prévios ou categorias generalizantes — especialmente quando se trata de traumas coletivos.
A escuta, portanto, precisa ser:
empática
aberta
guiada pela experiência do próprio sujeito
Mais do que explicar o paciente, trata-se de acompanhar sua narrativa, permitindo que sua singularidade emerja.

Trauma e transmissão entre gerações
Outro tema relevante foi a transmissão intergeracional do trauma.
Embora os efeitos de experiências traumáticas possam atravessar gerações, o encontro destacou a importância de evitar explicações automáticas ou deterministas.
Nem todo sofrimento da segunda ou terceira geração pode — ou deve — ser atribuído diretamente ao trauma vivido por seus antecessores. É preciso considerar a complexidade das histórias individuais e familiares.
Um legado que permanece atual
As contribuições de Anna Ornstein seguem extremamente relevantes, especialmente em um mundo marcado por crises, conflitos e diferentes formas de sofrimento coletivo.
Seu trabalho nos convida a um olhar mais humano, mais cuidadoso e mais complexo sobre o trauma — um olhar que reconhece não apenas a dor, mas também a capacidade de resistência, criação e reconstrução.
Para a ABEPPS, acompanhar e difundir esse tipo de reflexão é parte fundamental de sua missão: promover o estudo, o diálogo e o aprofundamento da psicologia do self, valorizando a singularidade da experiência humana.
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